Ricardo
Amatucci
Charter em Angra - janeiro de 2005
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No
dia da viagem tudo estava pronto para a partida. Íamos em
cinco amigos num charter em Angra, velejar à bordo de um
MJ 33, de 10 anos de construção,
teoricamente recém reformado, de 21 a 25 de janeiro.
Daniel "Mix" Kamamoto, João
Campos, Ricardo Gobbi e Wallace Splendori, além de
mim, Ricardo Amatucci, formam a nau
dos desorientados.
Depois, o pessoal voltaria para São Paulo e minha esposa
e minha filha desceriam para ficarmos até dia 28 por lá...
Chegamos ao Bracuhi por volta de 22:00h e depois de tirar a maioria
das coisas do carro e deixá-las no veleiro, partimos para
uma merecida janta no "Francês",
um simpático restaurante à beira dos atracadouros
da marina, voltando para um sono tranqüilo, mas quente e abafado... |
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| 21/01/2005
A casa do Ricardo Lepreri,
que tem quatro veleiros para charter, é uma casa simples
e bastante agradável, com uma varanda na parte de trás,
que faz limite com um deck já sobre o canal de Bracuhi,
onde centenas de outras casas e veleiros "no quintal"
completam a vizinhança.
Um verdadeiro paraíso para velejadores. Pela manhã,
tomamos café à bordo do "Feng
Shui" e estávamos prontos para sair para nosso
primeiro dia de velejadas... ou quase.
Finalmente deixamos o canal em direção à
nossa primeira parada, a ilha de Paquetá.
Um dos privilégios do "Feng Shui" era ter um
guincho para a âncora.
Quem já jogou e recolheu o ferro mais de uma vez por dia,
sabe quão penoso isso pode ser... Largamos ferro na pequena
enseada de Paquetá, onde estrategicamente nadamos até
um bar flutuante antes de chegar a praia.
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Paquetá
e seu bar flutuante
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A
temporada prometia... Após uma cerveja bem gelada e uns
mergulhos, foi a vez de um belo peixe frito... com mais cerveja.
Quando a preguiça bateu, sentimos que estava na hora de
sair de lá. Afinal, estávamos ali pra beber ou pra
velejar ?
Bordejamos pela baía entre as ilhas
de Paquetá e do Brandão, ao norte da Gipóia.
Quando
o tempo fechou entretanto, com nuvens mais escuras ameaçando
uma pauleira, achei por bem que devíamos
voltar - não sem protesto dos demais desorientados
- até porque já eram mais de 17:00h e tínhamos
um veleiro desconhecido nas mãos, e mais de 6 milhas pela
frente.
Dormimos mais uma noite quente, mas ainda não sabíamos
quão confortável estávamos até chegar
mais dois tripulantes...
Logo logo
o valente "Feng Shui" teria um apelido alusivo ao número
de homens por metro quadrado versus o calor abafado:
"sauna gay"... |

Mau tempo.... é melhor voltarmos |
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| 22/01/2005
Almoçamos no Bracuhi e no final da tarde chegaram os dois
restantes.
Nessa noite descobrimos que o lay out do MJ 33 não era
exatamente o que poderíamos chamar de confortável.
Como a mesa central não abaixava para virar uma cama de
casal confortável, como previra o projeto, por conta do
proprietário tê-la fixado permanentemente, tínhamos
que contar com duas camas de popa, uma em cada bordo, e uma de
proa, teoricamente de casal, mas que somente um casal muito apaixonado
é que poderia ocupá-lo dadas as suas pequenas dimensões.
Para cinco adultos, dois teriam problemas. Uma vaga logo foi ocupada
pelo Daniel, que tratou de se ocupar com um dos sofás da
mesa central. Até hoje nos perguntamos como ele coube lá,
mas o fato é que lá ficou todas as noites subseqüentes...
Restava um de nós e a solução óbvia
foi o chão, com o devido revezamento de uma noite para
cada um. Estava inaugurada a sauna gay..
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Interior
do Feng Shui, a "sauna gay"... |
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Saímos sem vento, motorando cedo direto para as ilhas de
Paquetá / Itanhangá (ilha do
Arroz), onde paramos após o motor
esquentar um pouco e soar o alarme.
Jogamos ferro e logo Wallace e João Campos resolveram explorar
a ilha. Saíram remando no bote mal chegaram a desembarcar,
voltando rapidamente.
A ilha, alugada para Luciano Huck,
transformou-se num paraíso do mau gosto, uma danceteria onde
o som rola madrugada adentro.
Zarpamos em busca da Gipóia, onde a praia
do Dentista nos esperava com suas praias de areia branca.Entramos
na pequena enseada com nossos eméritos pescadores no currico
e logo a linha esticou, puxou e envergou a vara de maneira que ficou
claro que algo realmente grande havia caído na linha. Era
grande mesmo. Haviam fisgado a lancha que
faz passeio de para-sail (pára-quedas amarrado a um cabo)
na ilha...
Jogamos ferro a 7.2m, na parte leste da ilha, e logo saímos
para um mergulho. Logo fomos chamados pelo Gobbi que descobriu uma
tartaruga nadando tranqüilamente próxima ao barco-bar
do Jango.
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Praia do Dentista na Gipóia |
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Saímos
após o almoço em direção a ilha Grande.
Nosso destino seria o Saco do Céu.
Algumas
horas depois, sem vento e motorando por mais de 3 horas, o tal
alarme de superaquecimento voltou a dar seu sinal de vida... A
essa altura estávamos ao largo da Enseada
do Bananal, e após uma breve reunião decidimos
ficar por lá, já que a área era bem abrigada
de ventos NE, que entrariam segundo a previsão.
Após a janta e um bom papo, o Gobbi nos ensinou um jogo
de cartas chamado "Presidente", onde o objetivo do jogo
é ganhar o cargo e ferrar os outros... Sugestivo...
O Bananal é uma grande Enseada abrigada
de NE a S, com um hotel um restaurante e uma simpática
operadora de mergulho, a Ocean, que visitamos no dia seguinte
a procura de alguns itens de equipamento que precisávamos,
antes de partir para o Saco do Céu.
Apesar dos ventos e dos giros, passamos uma noite tranqüila
e descansada... apesar de quente e abafada... |
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Enseada da Bananal: abrigado do E e NE
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| 23/01/2005
Pela manhã,
após o café da manhã fomos com o bote até
a operadora de mergulho para que
alguns de nós comprássemos os equipamentos que necessitávamos
e logo depois zarpamos para o Saco do Céu, nosso destino
original antes da parada técnica para resfriamento do motor.
Nesta manhã
entretanto o vento deu o ar da graça e pudemos velejar
bastante |
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Um simpático complexo hotel / operadora de mergulho
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Bastante o suficiente para que um dos desorientados resolvesse pular
na água com o veleiro a 6kn em contravento, e ser rebocado
por um longo cabo preso á bóia circular. Alguns de
nós já havímos feito isso, mas o vento estava
mais brando e o veleiro ía a uns 2kn no máximo.
Lá se foi ele vários metros
e lá fomos nós, tocando o Feng Shui. Nessas
horas, ninguém fica olhando pro cara que vai lá atrás...
Portanto passaram-se alguns segundos (?) até que um de nós
pudesse ver o que se passava:
o João Campos, protagonista
da façanha, desaparecia e imergia involuntariamente, por
causa da pressão que a bóia circular recebia do deslocamento
da massa de água.
O Wallace gritou pra mim que estava timoneando naquele momento:
"pára o barco !",
como se um veleiro tivesse freio de mão e a capacidade de
dar um cavalo de pau... Imediatamente olhei pra trás e ví
a cabeça do João saindo de baixo d'água meio
afogado, meio não (acho que a parte afogada era a do cérebro...).
Na verdade, após uma guinada de 180º (nessas horas as
tais manobras de butakoff que se fodam...), um jaibe (in?) voluntário
e um quase atropelamento, estávamos bem ao lado do João.
Mais tarde ele nos explicaria, mostrando os vergões em sua
perna, como o cabo enroscou próximo do calcanhar, impedindo-o
de ficar na superfície... |
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Quase parado não deu m...
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Antes
de entrarmos no Saco do Céu, fomos
ao Abrahão, onde compramos mais gelo e alguns itens
como sucos, água e outras coisas que necessitávamos.
A parada foi feita no píer das embarcações
de passeio, e nos permitiram exatos 15 minutos antes de sermos convidados
a sair.
Como o vento estava bom, fui voto vencido
na intenção de visitar os arredores e logo zarpamos
em direção à entrada do Saco
do Céu.
Como não conhecíamos a entrada e pela carta havia
um fundo bem raso e algumas Lages aqui e acolá, resolvemos
fazer um reconhecimento antes de dar uns bordos, de maneira a voltar
já com o final da tarde e ancorar para dormir. |
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Quem não tem pau de spi inventa moda com o croque.
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Estabelecemos um limite de horário em função
da distância, no qual poderíamos voltar a motor com
a luz do dia e em segurança, ainda mais depois de fazer
o reconhecimento.
Velejamos até o final da tarde e quando jogamos ferro,
ainda restou um tempo para uma caminhada no vilarejo antes de
escurecer.
Voltando ao veleiro, já de roupa trocada, o Daniel trouxe
a novidade de que o restaurante "Coqueiro
Verde" tinha um táxi boat, bastava chamar pelo
canal 16. E mais, que tinha chuveiro, banheiro - isso mesmo -
banheiro, limpinho, sem balanço, sem retorno, sem válvula,
sem aperto. Enfim, um banheiro... Chamamos pelo canal e aguardamos.
Mais afoitos, João Campos e o Daniel saíram no bote,
prometendo mandarem nos buscar.
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O reflexo do céu na água é que dá
a esse lugar o nome de Saco do Céu !
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Confesso que duvidei das duas coisas: que eles realmente se esforçassem
por mandar nos buscar e que o pessoal realmente se dispusesse
a pegar três marmanjos com poucas chances de gastar no restaurante...
Mas pensando bem, eles não sabiam desta última condição...
Transcorridos uns 40 minutos, já com o escuro da noite,
ouvimos um motor que se aproximava... e lá estava o táxi
boat.
Banhos e banheiros em dia, acabamos por pedir umas porções
de lula e mexilhões ao vinagrete, que o Daniel sonhava
já na véspera.
Ele aproveitou para deixar seu celular carregando
no restaurante, e nos fez jurar que não o deixaríamos
esquece-lo lá.
Um gaiato escreveu um bilhete e colocou-o no armário de
cozinha...
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Voltamos
para o Feng Shui para mais uma noite de revezamento no rodízio
dos quartos e do chão.
Todos queriam logo passar a noite do chão, que prometia
ser a pior, e então o duro era decidir quem não
dormiria aquela noite sem cama adiando o horror para a noite seguinte.
Naquela altura da viagem, o Gobbi já era chamado de "Gobbi
Dexter", numa alusão ao desenho onde um personagem
chamado Dexter é cientista e tem planos e explicações
científicas para tudo.
Por força de seu trabalho, ligado à área
química, sua "expertise" é explicar o
fundamento das coisas... Da flutuabilidade
das iscas à agregação das moléculas
de sabão e água salgada que permitiam o banho
de água salgada com sabonete, etc. etc. e mais etc., sempre
tínhamos uma explicação - se não verdadeira
- bastante convincente...
Terminamos a noite com mais uma partida de "Presidente",
mas desta vez eu fiquei de fora, rindo dos que tentavam escapar
do cruel destino de povo |
| 24/01/2005
Dormida mais uma noite,
a manhã seguiu com o café da manhã .
Terminado o
café, antes de partir voltamos ao restaurante Coqueiro
Verde, que tem uma poita com água doce e tratamos de usufruir
mais um pouco do banheiro antes de partir.
Nosso roteiro ainda incluiria uma parada na "Lagoa
Azul", uma confluência de três ilhas no
lado norte da ilha Grande, onde a água cristalina e calma
faz o paraíso dos mergulhadores e turistas dos passeios
de escuna, que costumam lota o local.
Jogamos ferro por lá e tratamos de mergulhar entre estrelas
do mar, peixes e milhares de filhotes recém nascidos, que
formavam um berçário enorme, numa verdadeira nuvem.
No princípio pensei que era poluição, causada
por restos de comida jogados pelo barco bar (sim, lá também
há um...). Mas prestando atenção vi pequeninos
serem que, aos milhares, numa nuvem, me envolvia por todos os
lados... Tratei de chamar os demais desorientados. Foi Deus que
fez esse lugar...
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Mergulho
ao lado de uma nuvem de peixinhos recém-nascidos
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De lá,
partimos para a Gipóia, na praia do Dentista, que já
conhecíamos desde a última
"pescaria".
Ancoramos ao lado de um Brasília 32, com dois velejadores
que desde a saída do Saco do Céu tínhamos
encontrado e tentado puxar um papo. Como das outras tentativas,
um e outro "hã hã" foi o máximo
de diálogo que conseguimos com eles. Pena que o espírito
da vela não permeie todos os colegas que se aventuram no
mar... |
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Tripulação
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25/01/2005
Partimos direto para a Ilha de Paquetá, pois nem o Daniel
nem o Wallace haviam curtido aquele pedaço de paraíso.
Fundeamos e mergulhamos durante um bom tempo, até que o
cansaço nos fez pedir água. Na verdade, cerveja
e caipirinha, lulas à doré e peixe frito... Para
arrematar, pastéis fritos na hora, onde o grande sucesso
foi o de carne de siri... É de chorar, caso você
se lembre deles no seu escritório...
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Feng Shui ancorado em Paquetá
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Partimos após o almoço, por volta das 13:00h e no
início da tarde estávamos
chegando em pleno canal do Bracuhi, para posteriormente
encostar no "quintal" da casa do Ricardo Lepreri. Era
o fim da primeira etapa dessa viagem.
Em breves momentos, a confusão, a bagunça, as pequenas
desavenças e grandes alegrias dos cinco amigos deixavam
um silêncio inquietante e saudoso a bordo do Feng Shui.
Arrumação de mochilas, cumprimentos, correrias e
fotos.
Num instante eu estava só..
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A alegria
do Ricardo......
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26/01/2005
Pela manhã, fiz um café preto e um pão com
manteiga
Depois
fui com o Lepreri reabastecer a geladeira do veleiro para a chegada
da Diana e da Helena, ainda sob uma
chuva que nos acompanharia pelo resto da viagem.
Fomos até o posto com uma bombona pegar os 20 litros de
diesel que estavam faltando para completar o tanque.
Por volta das 16 h chegaram as meninas. Minha alegria
foi grande, pois desde o dia 12, portanto há 14
dias eu não as via, pois tinham ficado no Chile.
Colocamos as coisas no veleiro e após uma breve tentativa
de "almojantar" aquele palmito no francês, que
estava fechado àquela altura, zarpamos sob forte garoa
e frio, por volta das 17 h,
Rumamos direto para Paquetá, onde
jogamos ferro.
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As corajosas marujas enfrentaram ondas e frio com bravura
!
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A
chuva não deu trégua e já à noite,
após um lanche e um pouco de namoro, as meninas dormiram.
A maré estava baixando e eu fundeara um pouco mais perto
da praia do que da outra vez, com receio do vento e das marolas
que entravam na pequena enseada. Dessa maneira, fiquei vigiando
o ecobatímetro.
Com um calado de 1,90m, o "Feng Shui" foi fundeado em
5,20m.
Mesmo na pequena baía abrigada da ilha de Paquetá,
o veleiro não parava de girar devido ao forte vento. À
01:00h o eco bateu nos 2,90m, para meu desespero. Eu havia decidido
que se ele chegasse a 2,80m eu manobraria e refundearia o barco.
Entretanto logo depois ele começou a marcar 3,0m , 3,10m
e assim sucessivamente de maneira que não tive dúvidas:
a maré estava subindo e eu já podia descansar.
Caí exausto de sono e tensão: era a primeira vez
que eu estava por minha conta, sem ninguém experiente como
o Daniel para dividir as decisões ou discutir procedimentos,
além de estar com os meus dois bens
mais preciosos: Diana e Helena...
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Helena: descobrindo o universo do mar
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No dia seguinte saímos sob chuva e com previsão
de vento e mais chuva, na direção do
saco do céu. Antes porém, saímos com
o bote, sob a chuva e o frio para satisfazer a vontade da Helena
que, desde a chegada, pedia para ir mergulhar comigo e estrear
a sua máscara e snorkel que ganhara do Papai Noel.
A praia estava absolutamente deserta. Nenhum maluco além
de nós concebeu ir à praia numa ilha afastada com
chuva e frio... Após alguns mergulhos voltamos e motoramos
em direção ao Norte da Gipóia.
Na passagem pela ilha do Macaco, ao Norte da Ilha Grande, pegamos
ondas de 1,5m com forte correnteza de 1,2 kn à medida que
nos aproximávamos da Freguesia de Santana e da entrada
do Saco do Céu. Tivemos que desviar de muitos troncos e
lixo flutuante, certamente trazidos pela correnteza e pela frente
fria que entrava sem dó. Finalmente, às 13:35h após
2,5 horas fundeamos, desta vez a 6,5m, por via das dúvidas...
Foi uma navegação tensa,
mas que terminou com lulas a doré no restaurante Coqueiro
Verde, com direito a táxi boat... Lá, conhecemos
uma casal 50% simpático, formado por uma baiana e um inglês.
Acho que não preciso dizer quem era o (a...) simpática...
Em charter, com um Oceano 35 pés, ele estava conhecendo
o verão brasileiro... talvez esse fosse o motivo do seu
humor.. Dormimos com fortíssimas rajadas de pelo menos
40 kn de NE/E.
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Casa no Saco do Céu em frente a qual existe uma laje
submersa
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| 28/01/2005
O dia seguinte
amanheceu nublado mas sem os ventos e rajadas da noite anterior.
Animados, subimos âncora e saímos na direção
da Gipóia.
Já na saída do Saco do Céu percebemos que
a volta seria pior que a vinda...
A lestada entrou braba e além da corrente da saída,
ondas de 2,0m a 2,5m nos atingiam, ora pelo través, ora
pela popa, tornando a volta muito ruim.
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Novamente Saco do Céu, mas agora com 40 nós
de rajadas |
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Mesmo
assustadas, Diana e Helena agüentaram
firmes até a Gipóia ,que fornecia um abrigo
razoável, mesmo com mar agitado e os rolões desencontrados
que entravam na parcialmente abrigada Praia do Dentista.
Pelo menos podíamos descansar e comer alguma coisa, depois
de quase 3 h de travessia turbulenta e tensa.
Descansamos um pouco e logo minha filha pediu que fôssemos
até a praia. Confesso que meu primeiro impulso foi negar
e sair logo em seguida, com medo da possível piora do tempo
e mesmo das condições locais para fundeio.
Mas acabei cedendo, e fomos com o bote a remo até a praia.
Ficamos por uma meia hora e achei por bem que era hora de voltarmos,
pois ainda tínhamos boas milhas até o Bracuhi, nosso
destino final.
Subimos no bote com a tralha de mergulho e colocamos a Helena no
bote, esperamos uma calmaria na arrebentação, pequena
mas desconfortável e subimos para em seguida começar
a remar.
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Fim de tarde na Gipóia
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Nesses momentos, a primeira coisa que se faz é olhar a distância
entre você e o veleiro, meio que instintivamente, e pensar,
como está longe e a falta que faz um motor de popa no bote...
Mas no nosso caso, a coisa foi bem pior.
Olhei para o veleiro e ele estava realmente longe. Mais e mais longe
a cada segundo, pois havia garrado.
Como desesperados remávamos em sua direção,
e ele ia indo a uma velocidade espantosa na mesma direção,
em sentido contrário. Comecei a assoviar a plenos pulmões
para a embarcação mais próxima, uma lancha
de uns 35 pés com várias pessoas a bordo e um churrasco
em pleno andamento. O máximo que consegui foi um homem de
carne em punho me olhando como se eu fosse um E.T. e que logo em
seguida virou as costas e voltou para o seu churrasco... Olhei novamente
para o nosso "Feng Shui" e lá
se ia, faceiro e descompromissado, na direção exata
das pedras que fuçam no meio da baia da Gipóia, em
frente à Praia do Dentista. Remávamos com toda
a nossa força e a Helena começou a ficar inquieta,
pois não estava entendendo exatamente o que se passava ,mas
via seus pais muito nervosos. Numa segunda tentativa, acenei com
os braços cruzando-os e assoviando para uma segunda lancha,
mas os tripulantes sequer me notaram.
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Ilha da Gipóia
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Já
quase desesperados e muito distantes do veleiro, impotentes com
os remos enterrados n'água, tentei um outro barco, desta
vez uma 50 pés, onde um homem embarcava um menino num bote
maior, desses com o fundo de fibra e um comando central.O homem
olhou-me e eu gritei com todas as minhas forças: "ajude,
o veleiro garrou, socorro !". Imediatamente o homem desembarcou
o menino no iate e veio em nossa direção. Pediu
o cabo do nosso bote.
Por medida de segurança, eu passei para o bote dele, já
prevendo a manobra de desembarque, pois seria muito mais complicado
sair do bote pequeno com a Diana e a Helena dentro, no meio da
agitação de onde o veleiro estava, do que sair de
dentro do bote maior e mais alto em relação ã
plataforma de popa do veleiro.
Logo que eu subi, ele acelerou com tanta velocidade que o pequeno
bote enterrou sua popa na água quase jogando a Diana e
a Helena para fora.
Eu pedi a ele que fosse mais devagar e ele atendeu. Em pouco tempo
abordávamos o veleiro. Subi o mais rápido que pude
à bordo e fui imediatamente ligar o motor antes de embarcar
as meninas |
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Ilhas
Botinas
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Os 15 segundos que se seguiram entre o pré-aquecimento
e a partida foram os mais longos da minha vida. Já com
o motor em marcha lenta, subi as meninas a bordo, amarramos o
bote e enquanto o guincho subia o ferro, tratei de agradecer o
homem que a esta altura já estava a caminho de seu iate...
Foi uma experiência e tanto, causada por três erros
cruciais, que jurei nunca mais iriam se repetir enquanto eu estivesse
no comando de uma embarcação:
Eu havia decidido não fundear ali, pois as condições
não eram próprias e nós poderíamos
ter seguido em diante. Ao invés disso, cedi aos apelos
da minha filha que queria ir à praia, o que quase nos custou
um veleiro 33 pés...
Eu presumi que a maré estava baixando (mas ela estava subindo)
dadas as observações dos horários da noite
anterior, quando fiquei vigiando o ecobatímetro. Não
tinha a tábua das marés, o que deveria ter...
Fundeei com pouca lazeira, para poder ficar no local mais abrigado
e apoiado na suposição errada da maré baixando...
O resultado é que a maré subiu e o veleiro garrou.
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Passado
o susto e consumida a adrenalina, prosseguimos na direção
do Bracuhi. Mas o tempo ainda ficaria pior. A passagem entre a saída
da Gipóia e a ilha do Pinto e Paquetá, entrando no
abrigo maior da Baía do Bracuhi, foi terrível.
As ondas entravam vindas de leste, entre 2,0m e
2,5m mas com maior violência e as rajadas de vento derivavam
bastante o veleiro, de maneira que para passar entre a ilha do Pinto
e Paquetá tive que subir bastante na direção
do Parcel do Pinto, para entrar entre as ilhas contando com a derivação
e com folga suficiente e de maneira a não ser jogado contra
as pedras de Paquetá. Dali em diante era quase uma represa,
somente com o desconforto do frio e da chuva fina. Mas era incrível
como o gosto da vitória de ter conseguido me safar de todas
as dificuldades e de não termos passado por pânico
ou descontrole, pôde ser tão boa. Pode
parecer exagero para quem nunca passou por isso, mas a sensação
era a de ter obtido uma espécie de permissão do
mar para voltar para um porto seguro com a família mesmo
tendo cometido alguns erros.
E isso é que nos torna velejadores de verdade. Saber-se
pequeno diante do mar... Aprendi muito nessa viagem. Muito mais
do que aprenderia em alguns anos em outras condições.
Lembrei-me bastante de Eric Tabarly em seu livro Memórias
do Mar: |

Paraty |
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"A
profissão de marinheiro é uma profissão de
humildade que exige um longo aprendizado. O mar sabe punir as
bravatas. Navegar é uma atividade que não convém
aos impostores. Em muitas profissões, podemos iludir os
outros e blefar com toda a impunidade. Em um barco, sabe-se ou
não. Azar daqueles que querem se enganar. O oceano não
tem piedade."
Já
era fim de tarde quando encostamos no píer particular do
Lepreri. Arrumamos as coisas e carregamos o carro, seguindo um
destino certo: a simpática cidade de Parati, onde encontraríamos
um pernoite seco, com banho quente e uma cama bem grande e seca.
Foi lá que fizemos os planos da próxima velejada
em Angra..
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João
Campos
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Daniel
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